O Tempo é um Chão onde cada Passo abre Portas: Reflexões da Amadora
Entre relógios de prata e o "Duelo da Alma", a Rota do Passado parou na Biblioteca Fernando Piteira Santos para discutir o fardo da memória e a fragilidade do nosso presente.
“Se o passado não fosse uma linha, mas um chão onde cada passo abre portas à escuridão?”
Foi com este mote que abrimos a sessão de apresentação de “Rota do Passado” na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos, na Amadora. Num auditório que acolheu uma audiência ativa e interessada, a conversa não foi apenas sobre um livro, mas sobre a forma como Portugal se olha ao espelho através dos séculos.
Acompanhado pelo Dr. Tiago Canhota, que teceu uma análise iconográfica e histórica profunda sobre a obra, mergulhámos nos símbolos que compõem esta jornada: desde as ruínas romanas de Bracara Augusta até aos pináculos das igrejas que orientaram a moral europeia.
O Fardo da Escolha
Como historiador, sempre me intrigou a ideia de que somos “reféns do passado”. O que aconteceu é inevitável. Mas e se pudéssemos dobrar esse tecido? No livro, o relógio de bolso descoberto em 2024 não é um brinquedo de aventura; é um fardo.
Discutimos na Amadora o perigo do egoísmo temporal. Salvar uma vida no século XII ou interferir num atentado em 1937 para evitar uma guerra mundial traz consequências que nenhum de nós é capaz de prever. Como afirmei durante a sessão, “o tempo não oferece respostas, oferece escolhas”.
O Duelo da Alma: Frei Martinho vs. Professor Valadares
Um dos pontos que mais ressoou com o público foi o confronto entre as duas figuras centrais da obra: o Frei Martinho, um frade agostiniano arrancado ao século XIX, e o Professor Valadares, um intelectual ateu e cético.
Este “Duelo da Alma” é a representação do choque que vivemos hoje. Martinho olha para 2024 e vê uma sociedade com a “humildade de um pavão”, onde as pessoas “antes olhavam para as estrelas e viam Deus, e hoje olham para os ecrãs e veem-se a si mesmas”. É um choque cultural e espiritual que nos obriga a questionar se o progresso tecnológico não terá vindo acompanhado de um retrocesso na nossa humanidade.
O Herói Anónimo e a Identidade Nacional
Refletimos também sobre os heróis anónimos. Muitas vezes, a História foca-se no Rei que mandou construir o castelo, mas esquece o engenheiro ou o pedreiro que deu a vida na obra. No livro, tal como vimos na recente pandemia, a verdadeira estrutura que mantém o mundo a girar são aqueles que não se podem dar ao luxo de parar.
“Rota do Passado” é a minha tentativa de descentralizar a narrativa. De levar a ação para fora de Lisboa e do Porto, mostrando que o grão de areia que encrava a engrenagem do tempo pode estar na Figueira da Foz ou em qualquer pequena aldeia com memória.
Pode assistir à sessão completa no YouTube
https://youtu.be/zjWXmiC3aqE
Já leu a Rota do Passado? Como lidaria com o fardo de possuir o relógio.
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